“As possibilidades parecem infinitas ou, pelo menos, suficientemente numerosas para terem um efeito paralisante. Pois, como pode alguém colocar no papel ‘a verdadeira idéia de uma cidade’, especialmente quando alguém gosta da cidade e o suprimento do papel é interminável?”
Robert Darton
Minha intenção nesse artigo sobre o conto de Octávio de Sá Barreto, “O automóvel n. 117...”, é lê-lo a partir da perspectiva do próprio contexto histórico focando a questão urbana, tão notável e emergente para a época para uma cidade como Curitiba, e outras perspectivas que se apresentaram por si só durante o trabalho. O conto de Sá Barreto deixa margem para as mais variadas leituras, seja o estudo sobre a linguagem, sobre os costumes, sobre as relações humanas, sobre o próprio autor ou sua geração de escritores e outros. Entretanto não incluo a intenção de esgotar as possibilidades de analise: primeiro, pois antes de esgotá-lo esgotaria o leitor. Segundo, pois não detenho aparato teórico para tanto. Portanto, toda a ousadia de interpretação não passará de pura especulação.
O conto se dá em torno do protagonista, Carlos de Alencastro, um jovem curitibano, estudante de Direito na cidade de São Paulo sai para tomar um ar depois de um dia cansativo de estudo. Não muito distante da pensão onde mora um aglomerado de pessoas lhe rouba a atenção e de pronto se aproxima para ver o que tinha ocorrido. Depara-se com o corpo de uma jovem, pelo que lhe parecia, pobre, estendido no chão, entretanto o que de fato que lhe chama a atenção é a limusine vermelha que teria causado o acidente. Fato comum para uma grande capital nos dois primeiros decênios do século XX, mas que causará grande impacto sobre o rapaz que se vê, agora, como que preso aquele dia e principalmente a visão do automóvel numero 117. Carlos, delira, tem pesadelos com o carro. Acaba por acontecer aquilo que ele mais temia. Foi atropelado pelo carro.
Carlos retorna a Curitiba depois de se formar e ocupa o cargo de promotor público em Colombo. Até que um dia, andando e admirando a “linda Curitiba”, se vê de tal forma atraído por uma mulher, com ar misterioso, que resolve segui - lá, porém a perde de vista. Em outra oportunidade consegue reencontrá-la e descobre que a limusine era da formosa mulher. Dentro do automóvel, Carlos ao levantar a cabeça logo após ter beijado as suas mãos se depara com uma caveira e não mais a mulher. Morrendo de medo bate em retida e tropeça em um paralelepípedo (tão afamado em nossa cidade). Acordando do desmaio se vê com a cara na placa n. 117, sai ensangüentado pela queda, dando gargalhadas “pavorosas”.
Esse conto bem humorado, um dos mais conhecidos do jovem autor, foi escrito em 1925 e está no primeiro numero da “Novella Mensal” depois “Novella Paranaense”, que teve como editores e autores Octávio de Sá Barreto e Rodrigo Junior. A revista não publicava um estilo característico, era sempre em prosa, escolha dos editores por julgarem que esse estilo teria maior aceitação e por conseqüência vendável. Outro motivo foi estimular os autores paranaenses para que produzissem romances. Octávio de Sá Barreto nasceu em Curitiba em 22 de Novembro de 1906 tendo feito seus estudos no Colégio Renascença, a Escola Republicana e terminou a faculdade de Direito em 1930. Trabalhou no jornal A República e publicou seu primeiro livro de poesia, “Este Livro”, em 1924. Participou da renovação Modernista no Paraná e Publicou ainda nos periódicos: Diário da Tarde, A Flâmula, O Itiberê, O Dia, O Estado do Paraná, Jazz, A Farofa, Ilustração Paranaense, Leia-me e outros.
Não se pode deixar de pensar na possível influencia do movimento modernista e da semana de arte de 1922, que ainda se repercutia nos anos seguintes, na vida e obra do autor. Em um verbete do Dicionário Histórico-Biográfico do Paraná sobre o modernismo no Paraná se comenta de um artigo de Paulo Bravo “O Futurismo no Paraná” de abril de 1923 “que revela um ‘movimento imperecivelmente moderno, bizarro’”. Porém, esse mesmo verbete informa a dificuldade da nova geração, que estava aberta a essas influencias, de ganhar espaço e reconhecimento por parte da geração de escritores anterior.
“De qualquer modo, a década de 20 revela inquietação dos meios artísticos e interesse pelas idéias de Vanguarda. A vida Boêmia é um dado revelador, como o eram as reuniões no atelier de Guelfi, pintor recém chegado de Paris e instalado numa espécie de barracão na rua Marechal Deodoro que pertencera ao fotógrafo Folk. Ali promoviam-se discussões entre intelectuais, jornalistas, escritores, artistas plásticos interessados nos nonos rumos da arte.”
Ao que tudo indica Sá Barreto foi reconhecido por sua “super-intuição futurista” com seu primeiro livro de poesias, percebido pela critica local e paulista também, “Nuvens que passam” de 1922.
Uma das evidencias dessa influencia na obra “O Automóvel 117...” é o recurso lingüístico muito utilizado na literatura modernista, ou moderna, encontrado em vários autores da contemporaneidade que trazia um aspecto mais materialista que era a citação dos nomes das ruas, era “(...) o texto de pedra que se formava diante dos olhos dos curitiybanos (...) . Utilizado de forma recorrente. Tanto na cidade de São Paulo, em um primeiro momento: a Libero Badaró, no Chá, o Anhamgabaú, o Municipal (Teatro), um Liberty, quanto em um segundo momento já quando retorna a Curitiba: a Rua 15, no largo da Ordem, da Marechal Floriano, Restaurante Elegante e outros. Ironia do destino quem fica imortalizado e vira referencia na cidade e se torna a Praça Octávio de Sá Barreto, no final da Rua Comendador Araújo, uma das ruas citadas no conto pelo autor.
Em meados da década de 1920 já se apresentava a ideologia nacionalista que buscava definir e afirmar a identidade brasileira. Essa tendência foi também foi vivenciada em escala regional. A respeito, Brasil Pinheiro Machado diz: “a história do Brasil como da formação de um povo e de uma nação, como história interna é formada de histórias regionais que, por justaposição, formaram a história geral da nacionalidade”, portanto “A história do Paraná é, pois, um capitulo da história regional do Brasil, e consiste na história da formação de uma comunidade que, como tal, adquiriu individualidade distinta de qualquer forma(...)” . Essa realidade era vivenciada em todos os seguimentos sociais e não poderia ser de forma diferente com a literatura que esta, também, em busca da sua identidade e buscava se renovar. Daniel Pécaut vai afirmar essa disposição dos intelectuais de reconstrução e de busca ao dizer que “A geração dos anos 25-40 não solicitou a mão protetora do Estado; ao contrario, mostrou-se disposta a auxiliá-lo na construção da sociedade (...)” .
O cenário não pode ser outro se não a cidade. Afinal “a cidade é o lugar onde as coisas acontecem, um tempo onde se realiza e atualiza a história e a memória que os homens constroem para si”. A cidade também é o espaço de desenvolvimento de novas sensibilidades ela “é produção de imagens e discursos que se colocam no lugar da materialidade e do social e que os representam; é percepção de emoções e sentimentos, é expressão de utopias, desejos e medos”
A cidade, modernidade e o medo. Há vários traços do viver urbano no conto e um deles é o medo. No conto isso se apresenta com o trauma de Carlos com relação a toda problemática que envolvia o acidente da garota pobre e o automóvel 117. Some a isso o fato de ele não apreciar muito as multidões. O delírio a loucura também me parece um traço urbano. Somente com a modernidade e a formação dos grandes centros urbanos e toda a ideologia das metrópoles é que se formaram os manicômios que nada mais eram, e são, depósitos de pessoas com problemas mentais congênitos ou adquiridos. Não chegou a ser o caso de Carlos, mas o autor deixa explicita a demência do homem moderno.
A Curitiba de ontem e de hoje tema recorrente entre os escritores curitibanos. Posterior a geração de Sá Barreto está Dalton Trevisan que também invocará essa temática. Os escritores curitibanos queriam estar por dentro do que acontecia ideologicamente no mundo, mas não acredito que eles quisessem, junto com elas, a movimentação inevitável que a modernidade trouxe. Sempre estão se referindo a Curitiba amada que foi, mas que já não é. Ou que é, mas, em breve, não mais o será.
Em o “Emblema da Cidade”, conto de Fraz Kafka apresenta o objetivo de um povo de uma cidade de construir uma Torre até o céu, então alguém diz que mesmo que a Torre fosse erguida em uma geração a outra com seus novos conhecimentos iriam por abaixo e construir outra, em “O Imortal” de Jorge Luiz Borges há a busca pela cidade que possuía a fonte dos Imortais, tal o que se encontra é uma cidade “desatinada” construída “com as relíquias de sua ruína (...) ergueram a cidade que percorri (...) marca de uma fase em que (...) determinaram viver no pensamento” É o que Sandra Pesavento diz sobre a possibilidade de ler a cidade, enxergar a sua história e as várias cidades contidas nela.
O intrigante é que para o autor, também assim como no auto 117, sobre a Curitiba de hoje ainda ser aprazível, mas que ele sabia que seria por pouco tempo Jorge Luiz Borges continua em seu texto dizendo “Moro um século na Cidade dos Imortais. Quando a derrubaram, aconselhou a fundação de outra (...). Foi como um deus que criasse o cosmos e em seguida o caos” A cidade que se constrói das ruínas sempre se apresenta como mais caótica que a anterior. Carlos não se enganava, sabia que Curitiba um dia começaria “a viver para um imprevisível amanhã (...) [e] que sua experiência cotidiana seria (sic) a de estranhamento.”
O que De Sá Barreto quer não é descrever a cidade, no máximo citá-la, o que engana qualquer leitor desatento, antes ele a inventa, imagina, satiriza, brinca com os temores dos habitantes da cidade. Chama a atenção para aquilo que se tornou trivial com o crescimento das cidades e a modernidade e compartilha a experiência individual de Carlos revelando ser a experiência dos seres urbanos. Revela um medo que é tolerado, o medo de ser surpreendido pelas adversidades comuns, medo de ser o próximo. Carlos só temeu porque entrou em contato, de certa forma, com o acidente e pôde romper com a atitude blasé que caracteriza o homem urbano e então entrou em contato com os perigos.
Uma outra possibilidade de analise do conto é percebê-lo pela perspectiva do fantástico que se revela pela irrealidade da realidade. No conto a parte a qual há referencia que possibilita essa analise esta no fato da mulher ser um fantasma. Isso trás um tom de humor para a prosa. A respeito do fantástico Todorv afirma que “O fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, em face de (sic) um acontecimento aparentemente sobrenatural”
Carlos deu graças quando foi embora de São Paulo, pois a memória individual que ele tinha da cidade não era boa (limosine vermelha), porém ele compartilhava da memória coletiva de São Paulo com a garoa, as ruas, as figuras. Assim de igual forma com Curitiba.