terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Unilateral



Ele não sabe que a vida passa e que agora mais do que antes.
Ele pensa que existem momentos, resumidos a algumas horas do final de semana, para expressar o sentimento que se convenceu possuir por ela.
Ela pensa em um final feliz muito embora não goste de ver os outros apreciando a ideia.
Ela não sabe o que esperar. Sabe que sente falta dele e sofre calada pois ele não aprecia a ideia de ouvi-la falar sobre o assunto.

Eles não sabem que é urgente amar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

entorpecentes


Mariposa. É isso. Seres humanos que se submetem a televisão por muitas horas não passam de insetos bobos em busca da luz. Com pacividade suficiente para não sentir ou refletir sobre as questões que merecem real atenção. Não só a televisão mas a própria internet e outros. Especialistas em amenizar a dor. A dor das incertezas, da ignorância, das impossibilidades. Nesse estado é dificil ver que quanto mais se procura alívio mais distante se está do inicio de uma vida livre. Ser o que quiser, deixar a mente criar e respirar... Saber do papel que se quer interpretar na vida, isto é, sua profissão, é diferente de saber o que se quer ser. E então, o que você quer? Pergunta simples demais e como toda pergunta simples demais é também complexa demais. Graças aos gregos! Bom, penso que seja agradavel que, ao menos, não nos deixemos reduzir à vida de um inseto que é bela e adequada para ele, que faz sentido e cumpre o seu papel, considerando o universo dele, e não para nós e não para o nosso propósito.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Com açúcar, com afeto


Com açúcar, com afeto
Fiz seu doce predileto
Pra você parar em casa
Qual o quê
Com seu terno mais bonito
Você sai, não acredito
Quando diz que não se atrasa
Você diz que é operário
Sai em busca do salário
Pra poder me sustentar
Qual o quê
No caminho da oficina
Existe um bar em cada esquina
Pra você comemorar
Sei lá o quê
Sei que alguém vai sentar junto
Você vai puxar assunto
Discutindo futebol
E ficar olhando as saias
De quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol
Vem a noite e mais um copo
Sei que alegre 'ma non troppo'
Você vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo
Vai bater um samba antigo
Pra você rememorar
Quando a noite enfim lhe cansa
Você vem feito criança
Pra chorar o meu perdão
Qual o quê
Diz pra eu não ficar sentida
Diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
E ao lhe ver assim cansado
Maltrapilho e maltratado
Ainda quis me aborrecer
Qual o quê
Logo vou esquentar seu prato
Dou um beijo em seu retrato
E abro meus braços pra você

Chico Buarque

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Descompasso



Uma manhã, tempo bom e todos dentro de um alimentador
Caras amassadas, corpos ainda dormentes procuram um lugar
Para sentar ou um cano para se firmar
Café com pão, café com pão, como diria o poeta, ouve-se de longe
O motorista acelera para passar na frente mas em vão o faz
Todos os veículos parados, abrem alas

Na frente do trem, estáticos sentem de leve uma nostalgia
Saudades do tempo de meninice
Volve uma curiosidade infantil
- Quem é o maquinista? Quem é, quem é?
Dentro do ônibus teve até uma senhora cabeluda que contou os vagões
- Trinta e um vagões
disse ela tentando quebrar o silêncio que ali se instaurou
- Trinta e um...

Auto móveis entraram em movimento
Pessoas retomaram suas conversas outras seus pensamentos e questões...Todos despertaram para seguir seus cursos e cumprir suas rotinas